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Bem-Estar:
espiritualidade no cotidiano
 

Depois de três anos de retiro no Tibete, um lama ocidental voltou para seu país e penou para se readaptar. Segundo seu relato – descrito no livro Depois do Êxtase, Lave a Roupa Suja (ed. Cultrix), do psicólogo e monge budista Jack Kornfield –, nos cinco primeiros anos após o retorno ele teve uma enorme dificuldade de se ligar à vida espiritual por causa de nosso cotidiano, no qual as pessoas “só têm sensibilidade para correr atrás das coisas”. Para não esquecer o que aprendera e estabilizar sua mente, o lama usava um recurso incomum: a limpeza. “Em silêncio, eu cantava um mantra (sons sagrados repetidos em seqüência) de compaixão a cada prato que lavava, a cada chão que esfregava”, conta. “Fazia também uma prece para que todos os pisos e o coração de todos os seres a minha volta ficassem limpos, purificados e inocentes. O tempo parava, como se eu fosse parte da terra que se purifica na primavera. As tarefas físicas mais simples nos ensinam a ficar neste mundo de maneira sagrada.”

Lavagem de chão como veículo para a espiritualidade? À primeira vista, a idéia parece estranha. Mas todas as tradições espirituais sublinham a importância de sermos seres integrais, amadurecidos por completo – e é impossível conseguirmos isso ignorando as atitudes e ações do dia-a-dia.

Conciliar a espiritualidade com o cotidiano é sempre um desafio em praticamente todas as culturas. No Ocidente, a dificuldade está ligada sobretudo a nossa cultura consumista, que encoraja as pessoas a buscar a gratificação imediata e externa, como uma roupa da moda ou um carro importado. Essa ânsia de satisfação leva a maioria dos ocidentais, quando muito, a reservar à espiritualidade breves momentos na semana, vivendo o resto do tempo como se as idéias de sua crença religiosa, moral e ética de pouco ou nada valessem. Mas não adianta fugir do cotidiano. Atos aparentemente triviais, como pagar contas, ir ao trabalho e levar filhos à escola, têm relevância espiritual. E estar consciente disso também é um fator de aperfeiçoamento. Gandhi (1869-1948), líder político e espiritual hindu, observou: “Não dá para acertar num departamento da vida e continuar errando em outro. A vida é um todo indivisível.”

Família e dinheiro
Encarar esses setores da existência revela nossos pontos fracos, e enfrentá-los nos faz crescer interiormente. A família, por exemplo, é um prato cheio. As tradições espirituais sublinham a importância da tolerância, do respeito e do despir-se de preconceitos e expectativas para ver a vida como ela é, e não há lugar melhor para essa prática do que o lar. Se cuidarmos bem das relações com a família, a maior parte de nossa tarefa na vida terá sido cumprida. Outro ponto-chave é o dinheiro. Essa energia de troca é um grande professor no caminho espiritual – para o mal e para o bem. A supervalorização do dinheiro no Ocidente desemboca na ganância, na avareza, no medo da escassez. Visto de forma espiritualmente sadia, porém, ele é um meio de difundir prosperidade, recompensa o trabalho feito com amor e, como energia, nunca deve ficar estagnado.

Viver no presente
Para entrar em contato com a espiritualidade no cotidiano, é fundamental desenvolver o que o budismo chama de atenção plena. Essa observação cuidadosa e sem julgamento do que acontece a cada instante nos conduz a uma profunda consciência, que nos dá novas percepções sobre o mundo e sobre nós mesmos. Com a atenção plena, podemos agir no presente com maior espontaneidade e liberdade.

Pagar as contas – As preocupações e o medo de perder dinheiro ou de que ele falte nos remetem a um sistema de crenças que limita nossa relação com a abundância. Desativar esses temores é uma forma de mudar a programação mental, o que permite pagar contas como uma troca saudável e não sofrida.
Ir ao supermercado – Comprar conscientemente é encantar-se com a diversidade de mercadorias e exercitar o discernimento, escolhendo, por exemplo, produtos que preservem o meio ambiente ou comprando nas quantidades adequadas para que nada estrague. Essa atividade corriqueira pode ser percebida como uma gigantesca rede de distribuição, feita com o trabalho de milhares de pessoas para que os produtos possam chegar ao seu bairro.
Educar os filhos – Em vez de impor restrições constantes à criança, perceba suas características positivas. Quando seu filho resolve problemas que pareciam estar além de sua capacidade ou partilha brinquedos sem receber ordem para isso, ele merece um elogio.

Ao descobrir a espiritualidade no cotidiano, a pessoa passa a ter muito mais ferramentas para se equilibrar e mudar seu futuro. A vida continuará com sucessos e fracassos, mas a mente aprende, sem se perturbar, a extrair lições de todas essas situações. Em tudo que uma pessoa faz é possível criar e manter um estado de ser que reflita nosso verdadeiro destino. Quando essa possibilidade é posta em prática, o dia comum não é mais comum. Ele se torna uma aventura do espírito.

Exercícios de atenção plena
Condição fundamental para o desenvolvimento da espiritualidade no dia-a-dia, os exercícios que fortalecem a atenção plena – ou seja, estar consciente do que acontece no momento presente – colocam o praticante num estado mental equilibrado e focado. Essa prática pode ser aplicada a qualquer atividade (no trabalho, dirigindo, comendo, andando), basta estar concentrado nesse propósito. Conheça a seguir alguns desses exercícios:

Lavando a louça – Faça isso relaxadamente, como se cada panela, copo, garfo, fosse um objeto de contemplação, uma peça sagrada. Inspire e expire profundamente e controle sua respiração para evitar que a mente se distraia. Não tente acelerar o ritmo para terminar a tarefa mais cedo. Encare a tarefa como a coisa mais importante da vida. Lavar os pratos é meditação. Se você não consegue lavar os pratos com consciência plena, tampouco pode meditar sentado em silêncio.
Preparando o chá – Faça cada movimento lentamente, com plena consciência dele. Perceba que sua mão levanta o bule pela asa, que você está despejando o chá perfumado na xícara. Siga cada passo com atenção. Respire suavemente e de forma mais profunda que a habitual. Controle sua respiração caso sua mente tenda a se distrair. Sirva com gentileza aos amigos ou saborei-o sozinho, sentindo o cheiro, a temperatura etc.
Posições do corpo – Isso pode ser praticado em qualquer hora e lugar. Preste atenção em sua respiração. Inspire e expire de modo mais profundo que o habitual. Esteja consciente da posição do seu corpo: se você está andando, de pé, deitado, acelerado ou lento. Perceba como é a superfície onde pisa, onde está deitado ou onde está sentado. Preste atenção em cada detalhe da postura e do seu entorno. Por exemplo, você poderia estar consciente de que está de pé numa colina verdejante para refrescar-se, praticar exercícios ou simplesmente apreciar a paisagem. Se não há nenhuma finalidade, apenas constate que não existe esse objetivo.

 
Fonte:
Data: 16/6/2003
 
 

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