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Seja um menino sempre
 

Você já parou para pensar, em certos ruídos que nos acompanham a vida inteira? Não estou falando de poluição sonora, e sim daqueles ruídos que nos remetem à nossa infância...

Ruído da água da fonte da praça, onde muitas vezes brincávamos e nos deliciávamos em observar a água correndo entre as pedras, e ficávamos querendo levar as carpas coloridas para colocar em nosso aquário em casa.

Ruído daquela gangorra surrada pelo uso, no parquinho, onde tantas e tantas vezes brincávamos com nosso melhor amigo.

Ruído da corrente da balança, a balançar nossos sonhos, enquanto íamos e vínhamos imaginando montar um cavalo alado.

E como eram bons esses ruídos, lembro-me muito bem do ruído que a bicicleta fazia, quando eu colocava uma carta de baralho a bater nos raios da roda, e imaginava pilotar uma motocicleta em uma estrada deserta.

Ruído de feriado no parque, onde o realejo tocava a valsinha da sorte, e o canarinho tirava nosso destino com o bico.

Ruído de mãe chamando o filho, de pai empinando pipa, ruído do pipoqueiro fazendo pipoca, do sorveteiro gritando "olha o sorvete"!! Como isso era bom, e não tínhamos idéia.

Havia também aquele ruído de pai chegando em casa, e corríamos para ganhar o abraço, interessados na bala ou no doce que ele nos trazia, ruído de mãe fazendo almoço, enquanto brincávamos no quintal.

Ruído do amolador de facas, com seu apito vermelho, ruído do vendedor de biju, a bater um ferro na madeira.

Lembro-me que não existia ruído melhor, que aquele de festa de aniversário, com língua de sogra, apito estridente, reco-reco e estouro de bexiga.

Ruído de papel de presente, que a gente amava rasgar, para ver logo que brinquedo o papel escondia.

Ruído de brinquedo novo pela sala, ruído da conversa de nossas tias com nossa mãe, que muitas vezes não entendíamos o que falavam.

Ruído de visita de avó, pois quando chegava era uma alegria, e corríamos logo ao seu encontro para mostrar algo novo que tínhamos aprendido na escola.

Ruído do almoço com os tios aos domingos, do jogo de truco das tardes de domingo, da televisão ligada no futebol.

Ruído do apito da fábrica, que segundo Noel Rosa feria nossos ouvidos, e como era bom ficar olhando o movimento dos operários na hora do almoço, todos felizes pelo trabalho que tinham.

Da viagem no fim de semana na praia, com nossos pais, ruído da serra, ruído do mar acariciando a areia, dos ambulantes oferecendo quitutes diversos.

Da viagem de férias, da casa do amigo que gostávamos de dormir nos fim de semana.

Ruído do recreio no pátio do colégio, onde jogávamos figurinhas, do sinal tocando encerrando a brincadeira.

Ruído de bronca de mãe, esse não gostávamos muito, mas como é bom lembrar, ruído da chuva quando tínhamos que ir pra escola cedo, e tínhamos vergonha de usar guarda-chuvas.

Ruído de final de ano, época de Natal onde tudo era mais colorido, ruído do sino e da risada do Papai Noel, ruído das lojas enfeitadas, ruído das cestas de vime de natal, que nosso pai levava pra casa, ruído de presente.

Existem certos ruídos que nos acompanham pela vida afora e que jamais esqueceremos, pois são ruídos de felicidade. Hoje, não convivemos mais com esses ruídos. Infelizmente, os ruídos são outros.

Ruído de pessoas infelizes e amargas no trânsito louco do dia a dia.

De pessoas ávidas pelo vil metal, atropelando a tudo e a todos, pela busca de um sórdido poder.

De pessoas amarguradas, nas esquinas, nos quarteirões presas em seus anseios desesperados por um caminho perdido.

Ruído de pessoas arrogantes, que não descobriram o efeito de uma palavra de afeto, de um carinho e de um abraço.

Ruído de bombas lançadas contra velhos e crianças, barulho da violência urbana, das balas perdidas.

Ruído das famílias infelizes pelo desemprego, pela fome que assombra, barulho da pobreza absoluta.

Ruído das invasões de terra, das manifestações políticas, das manifestações pela Paz.

Na verdade se pararmos para pensar um pouco, talvez esses ruídos sempre existiram no tempo da nossa infância, mas não nos incomodavam, pois como crianças tínhamos ouvidos para outro tipo de sons. Por isso temos que ser meninos pra subirmos ao céu, pois de outra maneira teremos que ficar ouvindo esses barulhos que nos fazem muito mal.

Sejamos todos, sempre meninos.

 
Fonte:
Data: 17/4/2003
 
 

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